Quando o intestino fala com o cérebro: entendendo a síndrome do intestino irritável além da alimentação

Dor abdominal que aparece em períodos de maior tensão. Intestino que prende durante alguns dias e, de repente, acelera. Estufamento mesmo depois de refeições aparentemente leves. Sensação de que determinados alimentos passaram a fazer mal, embora os exames não mostrem alterações importantes. Para quem convive com a Síndrome do Intestino Irritável (SII), situações como essas podem fazer parte da rotina — e nem sempre a explicação está apenas no que foi colocado no prato.

Hoje, a medicina entende a síndrome do intestino irritável como um distúrbio da interação intestino-cérebro. Isso significa que alterações na maneira como o sistema digestivo e o sistema nervoso se comunicam podem influenciar a sensibilidade intestinal, os movimentos do intestino e a percepção de dor.

E compreender essa relação muda bastante a forma de enxergar — e tratar — a SII.

Intestino e cérebro conversam o tempo todo

Embora estejam fisicamente distantes, cérebro e intestino mantêm uma comunicação contínua e bidirecional. O sistema nervoso, hormônios, mediadores químicos, células do sistema imunológico e a própria microbiota intestinal participam dessa rede complexa de mensagens.

É o chamado eixo intestino-cérebro.

Essa comunicação acontece nas duas direções. O cérebro pode interferir no funcionamento intestinal e, ao mesmo tempo, informações provenientes do sistema digestivo chegam continuamente ao cérebro.

Na maior parte do tempo, nós sequer percebemos essas mensagens. O intestino se movimenta, recebe alimentos, produz gases e conduz o conteúdo intestinal sem que cada pequena alteração seja interpretada como desconforto.

Na SII, porém, esse processamento pode funcionar de maneira diferente.

Algumas pessoas apresentam uma maior sensibilidade aos estímulos intestinais, fenômeno conhecido como hipersensibilidade visceral. Quantidades de gás ou distensão intestinal que seriam pouco perceptíveis para outra pessoa podem provocar dor, pressão ou desconforto significativo em quem tem SII.

Ou seja: o sintoma é real. O que pode estar diferente é a forma como organismo e cérebro recebem e interpretam aquele estímulo.

Então a síndrome do intestino irritável é causada pelo estresse?

Não.

Esse é um dos equívocos mais comuns quando se fala sobre SII e eixo intestino-cérebro.

Dizer que cérebro e intestino estão conectados não significa afirmar que a doença é imaginária, psicológica ou simplesmente provocada por ansiedade. A síndrome do intestino irritável é uma condição complexa, e não existe uma única causa capaz de explicar todos os casos.

Alterações da motilidade intestinal, maior sensibilidade visceral, infecções gastrointestinais anteriores, fatores alimentares, mudanças na microbiota, predisposição individual e mecanismos relacionados ao sistema nervoso podem participar do quadro.

O estresse entra nessa história como um possível modulador dos sintomas.

Em determinadas pessoas, períodos de maior tensão emocional podem alterar motilidade, sensibilidade, secreções e outros mecanismos do sistema gastrointestinal, contribuindo para intensificar manifestações já existentes.

E o caminho inverso também acontece.

Conviver com dor, distensão abdominal, urgência para evacuar ou receio constante de não encontrar um banheiro pode gerar preocupação e ansiedade. Forma-se, então, um ciclo no qual sintomas intestinais aumentam o estresse e o estresse pode favorecer novos sintomas. O American College of Gastroenterology destaca justamente essa relação bidirecional entre sofrimento emocional e manifestações da SII.

Por que o intestino pode reagir tanto em algumas pessoas?

Imagine que o organismo possui um sistema de “volume” para as sensações intestinais.

Em algumas pessoas com SII, esse volume parece estar aumentado.

Uma quantidade normal de gás pode parecer excessiva. Uma contração intestinal pode ser percebida como cólica. Pequenas mudanças no trânsito intestinal podem desencadear sintomas bastante incômodos.

Além disso, alterações na velocidade com que o conteúdo se desloca pelo aparelho digestivo ajudam a explicar por que algumas pessoas apresentam predominantemente diarreia, outras constipação e algumas alternam entre os dois padrões.

Por isso, dois pacientes com diagnóstico de síndrome do intestino irritável podem apresentar histórias completamente diferentes.

E essa individualidade é importante também na escolha do tratamento.

Nem tudo precisa ser retirado da alimentação

Quando os sintomas aparecem depois de comer, é natural começar a procurar culpados no prato.

Leite. Glúten. Café. Feijão. Frutas. Carboidratos.

Em pouco tempo, algumas pessoas chegam ao consultório evitando tantos alimentos que a própria alimentação se torna uma fonte de preocupação.

Existem estratégias dietéticas que podem ser muito úteis no tratamento da SII, inclusive abordagens específicas para determinados carboidratos fermentáveis. Mas elas precisam ser utilizadas com indicação adequada e, especialmente quando envolvem muitas restrições, preferencialmente com acompanhamento profissional.

O ponto importante é entender que alimentação é apenas uma das peças do quebra-cabeça.

Quando existe um distúrbio da interação intestino-cérebro, olhar exclusivamente para os alimentos pode não ser suficiente para explicar todos os sintomas.

Tratar a SII é compreender o conjunto

Justamente por ser uma condição multifatorial, o tratamento da síndrome do intestino irritável pode envolver diferentes estratégias.

Dependendo do padrão e da intensidade dos sintomas, podem ser avaliadas mudanças alimentares, adequação do consumo de fibras, atividade física, hábitos intestinais, qualidade do sono, manejo do estresse e medicamentos direcionados para constipação, diarreia, dor ou hipersensibilidade intestinal.

Em alguns pacientes, terapias direcionadas ao próprio eixo intestino-cérebro também podem fazer parte da abordagem. Diretrizes do American College of Gastroenterology reconhecem, por exemplo, o papel de terapias psicológicas direcionadas ao intestino dentro das opções terapêuticas para SII.

Isso não significa transformar um problema gastrointestinal em um problema psicológico.

Significa tratar um sistema que funciona de maneira integrada.

Seu intestino não funciona isoladamente

Talvez uma das mudanças mais importantes na compreensão da síndrome do intestino irritável seja justamente abandonar a ideia de que precisamos escolher entre “o problema está no intestino” ou “o problema está no cérebro”.

Na SII, essa divisão simplesmente não funciona tão bem.

Intestino, cérebro, sistema nervoso, microbiota, alimentação e ambiente fazem parte de uma rede dinâmica, e diferentes elementos podem ter pesos diferentes para cada paciente.

Por isso, diante de dor abdominal recorrente, distensão, alterações frequentes do hábito intestinal ou sintomas que começam a limitar alimentação, viagens, trabalho e vida social, vale buscar uma avaliação gastroenterológica.

Antes de atribuir tudo à síndrome do intestino irritável, é importante compreender a história clínica, reconhecer o padrão dos sintomas e avaliar se existem sinais que indiquem necessidade de investigação adicional.

Na gastroenterologia, muitas vezes o caminho para controlar os sintomas começa justamente quando deixamos de observar apenas onde dói e passamos a entender como todo esse sistema está se comunicando.

Dra. Rafaela Vieira | Gastroenterologia
Avaliação individualizada, investigação criteriosa e cuidado voltado à compreensão dos sintomas digestivos e de sua relação com o organismo como um todo.

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